As fases do casamentoO meu filho de 11 meses está na fase da resistência ao sono. O termo "fase" entrou como um tirano no nosso vocabulário, cá em casa. "Esperemos que esta fase passe depressa"; "a fase dos primeiros dentes não foi tão difícil"; "as fases fazem parte do processo de crescimento"; e... a mais proferida: "será que vamos aguentar até ao fim desta fase!".
O casamento também tem fases. Ninguém gosta de pensar que a sua chama amorosa vai empalidecer. Mas, de certa forma vai. A ideia de que deixamos de viver exclusivamente para o nosso parceiro(a) não é agradável. Mas, num certo sentido é essencial que assim seja. Por isso, aqueles que equacionam verdadeiro amor com paixão estão votados ao desencanto. O casamento é uma viagem através de fases nem sempre previsíveis na sua duração, e nem sempre esperadas na sua aparição. Estas fases, como as estações do ano, são sequenciais e muitas vezes fundem-se umas nas outras, formando uma massa emocional compacta. Saltar fora é impossível. Todavia, cada fase tem as suas próprias características e desafios. Cada uma enriquecendo a outra para que cheguemos ao potencial máximo do amor.
Fase 1: O Romance.
Esta fase inicial é necessária e desejável. É importante o encantamento. O "andar nas nuvens".
O "perder o pé da realidade". A sensação de que o sol nasce e põe-se nos olhos da pessoa amada.
Sem esta fase não há fundamentos para se construir uma relação sólida. Relação sem encanto é como casa sem alicerce.
É o tempo em que os casais se esquecem que são duas pessoas com identidades distintas (não necessariamente separadas).
Há uma desejo intenso de intimidade, e experimenta-se uma união quase mística – "ele(a) parece que lê os meus pensamentos!"
É o êxtase!
Fase 2: A Luta de Galos Dois galos numa capoeira não podem viver em paz. Este fase emerge quando certos hábitos irritantes começam a aparecer à flor da pele. A tampa na sanita é um clássico do irritamento feminino. Mas há mais: rilhar os dentes a dormir ("parece que casei com um esqueleto"); não deixar o outro acabar de falar; coçar as partes íntimas em público; corrigir o outro em frente a estranhos; insistir em espremer borbulhas do parceiro; usar termos de carinho ultra-melosos ("ursinho"; "popinha"); etc. Duas pessoas anteriormente independentes a viver em conjunto terão sempre estas mini escaramuças. A intensidade e o frenesim desta fase varia. E as consequências também. Para alguns casais esta é uma fase terminal.
Fase 3: Cooperação
Esta fase é um sopro de ar fresco. Uma renovada energia e vigor invadem a relação. Ultrapassada a carreira tortuosa dos obstáculos bélicos, surge uma sensação de aceitação e uma vontade de mudança. Essa vontade é vista na forma como se descobrem novas estratégias de comunicação. O “estar junto” é sereno e tranquilo, sem as fricções anteriores. O silêncio torna-se descansativo em vez de ser uma arma de agressão emocional. A clássica "birra" é tratada com humor e não põe em risco a estabilidade emocional. Nesta fase os casais em vez de olharem apenas um para o outro, têm a capacidade de olhar para dentro de cada um. Abrem mão da ilusão de que o seu parceiro(a) existe somente para satisfazer as suas necessidades, e redefinem o amor em termos de enfrentarem os seus medos, defesas e mágoas pessoais.
Fase 4: Mutualidade
Houve uma mudança radical na fase anterior. Mas, em tempos de stress ou problemas, surgem velhos fantasmas. Conforme o amor vai crescendo entra-se numa nova fase, naturalmente. Aqui a mutualidade é a pedra de toque. Procura-se os desejos mútuos, os planos mútuos, a realização mútua, a comunicação mútua, etc. Há uma convicção de ser um com o outro. Há uma sensação de segurança e de pertença. Na mutualidade não há espaço para se anular uma das partes. Pelo contrário, a mutualidade vai potenciar o crescimento harmoniosos de cada um. Os velhos padrões de luta fazem parte do passado e a intimidade é tão natural como a manhã seguir-se à noite.
Fase 5: Criatividade
Embora mais velhos, nesta fase o casal é mais criativo. A experiência de vida resulta numa energia mais direccionada. O ritmo de intimidade está no seu auge. O amor transborda. Seguros no seu amor e em si mesmo, o casal nesta fase está disponível para abraçar o mundo. Esta fase pacífica torna cada parte do casal consciente que tem uma missão a cumprir, e assim desenvolvem ambos uma rede de relacionamentos que dão segurança e alegria genuína. É a fase dos netos. É a fase dos empregos estáveis. É a fase da pré-reforma. É a fase dos fins-de-semana na aldeia.
Em resumo. O amor muda ao longo da vida e engravida formas diferentes de se manifestar. Enquanto a paixão fogosa recua, a intimidade tranquila avança. A chama pode empalidecer, mas o lume brando arde eternamente.
Samuel Nunes