O Factor Barnabé

Vivemos numa sociedade carenciada de encorajamento. Como a terra seca anseia por água fresca, assim o mundo à nossa volta necessita de encorajamento. E, numa altura em que se volta a debater a questão do aborto, a adopção por casais homossexuais, a liberalização das drogas e a eutanásia, é urgente levantarmo-nos contra esta “sociedade da morte”. Sim, porque com o pessimismo a instalar-se nas comunidades Portuguesas, seria mais natural batermo-nos pela vida, pelo apoio aos nascimentos e às mães sozinhas com filhos, pelo fortalecimento da família e pela esperança num futuro melhor. Mas, que pena! Este é uma sociedade de morte que promove o lado lunar da vida. É o “orgulho gay”, o “orgulho pró-aborto” e o “orgulho anti-solar”. Já diz a Bíblia há muito tempo que “os homens amaram mais as trevas do que a luz”.

Daí a urgência do encorajamento!

Na Bíblia em Actos 4:36-37, há um homem que nos é apresentado pelo nome – José – e pela sua alcunha – Barnabé, filho da consolação. E mais à frente em Actos 11:23-24, ele é descrito como um “homem de fé e cheio do Espírito Santo”. Visto que o Espírito Santo é O Consolador, será legítimo concluir que Barnabé – o Filho da Consolação – estava em sintonia perfeita com o Espírito. E é da vida deste homem que nos vêm lições preciosas sobre o encorajamento. Todavia, deixem-me só limpar o terreno de algum “ruído” nesta área que tem infectado a comunidade Cristã. Quando falo de encorajamento não me guio pelas ideias dos livros de auto-ajuda tão populares nos dias que correm. Esses livros - que só ajudam na receita para o desastre – falham em dois conceitos essenciais. Primeiro, confundem auto-estima com amor próprio. Ora, o amor próprio levado ao extremo gera o orgulho que por sua vez engravida na autonomia em relação a Deus. Ou seja, o amor próprio enxota Deus da nossa vida. E é essencial para a nossa vida e para a sociedade em que vivemos afirmar esta verdade: Dependemos de Deus. Em Génesis 4:26 Sete, irmão de Caim constata que a raça humana estava a afundar-se numa espiral de violência e chama ao seu filho Enos. E diz a Palavra que “daí em diante se passou a invocar o nome do Senhor”. Ora, “Enos” significa “fraqueza, fragilidade”, e é reconhecendo a sua fragilidade que a raça humana começa a invocar o nome do Senhor. Isto é essencial para o Cristão. O nosso valor vem da Cruz. Deus nos amou por termos um valor imenso e morreu por nós... mas houve a necessidade dessa Cruz cruel. Porque “Cristo morreu por nós sendo nós ainda pecadores”, e Deus nos ama não por sermos bonitos e respeitáveis mas porque esse é o seu carácter: Ele é Amor.
Em segundo lugar os livros de auto-ajuda erram ao confundirem auto-estima com bem-estar. A realidade traduzida em palavras por Cristo é que “no mundo tereis aflições”. E, o segredo da vida Cristã não gira na dobradiça do bem-estar, nem se esgota na ausência de problemas. O segredo da vida com Cristo é a forma de enfrentar os problemas, passar por eles e sair do outro lado vitorioso. O segredo é não “ficar”, mas “ultrapassar”; não “desanimar”, mas “conquistar”. Por isso o Cristão não vem camuflar a dor e o sofrimento dizendo: “Está tudo bem! Tudo se vai resolver!” Isso é duma crueldade feroz para quem está a sofrer e vê que nada está bem, e que nada se parece resolver. O Cristão afirma com Cristo: “... mas tende bom ânimo, Eu venci o mundo”. É isso! Cristo venceu! Não somos nós pelo nosso esforço que vencemos, mas é Cristo quem conquista a vitória por nós. E se somos Cristãos, estamos em Cristo e portanto a vitória também é nossa. Limpo o terreno das falácias passemos às verdades Bíblicas sobre o encorajamento. Como opera o encorajamento nas nossas vidas? Como podemos praticar o encorajamento no nosso dia a dia?



1 – O encorajamento é a arte do exemplo.

Em Actos 4:37 nós lemos que “Barnabé tinha um campo e vendeu-o, trouxe o preço e o depositou aos pés dos Apóstolos”. Barnabé, o Filho da Consolação, encoraja os outros pelo exemplo. Ele vai à frente a mostrar ao caminho. Este homem está preocupado com os Cristãos pobres de Jerusalém. E o que faz ele? Dá o exemplo. Vende a sua propriedade e dá o dinheiro para ser distribuído pelos carenciados conforme as necessidades de cada um. Este é um encorajamento muito prático. Devemos animar os outros a ter palavras doces... falando palavras doces. Devemos motivar os outros a ter pensamentos puros... tendo nós próprios pensamentos puros. Se queremos união... paremos com os mexericos. Se queremos uma Igreja mais activa... libertemos a nossa agenda. Se queremos justiça... respeitemos os outros. Se queremos paz... paremos com a guerra fraternal. Este é o factor Barnabé!



2 – O encorajamento é a arte do elogio.

Em Actos 9:27 nós lemos que “Barnabé tomando Paulo consigo o levou aos apóstolos e lhes contou como ele ousadamente falara em Samaria de Jesus”. O contexto ilumina a verdade: Paulo tinha mandatos de captura para colocar na prisão os Cristãos. Ele marcha majestosamente sobre Samaria. No caminho encontra Cristo – “quem és tu? – que se revela como O Caminho – “Eu Sou Jesus a quem tu persegues”. Paulo converte-se e transforma-se no mais apaixonado e determinado pregador das Boas Novas. Logo em Samaria ele começa a revirar as coisas de pernas para o ar. Foge num cesto por uma fenda no muro da cidade. Abriga-se em Jerusalém e tenta contactar com os apóstolos. Estes encolhem-se de medo – ele poderia ser uma espião infiltrado para capturar os que pertenciam à seita do “Caminho”. É então que entra em cena Barnabé, o Filho da Consolação, o encorajador. Barnabé faz a ponte entre Paulo e os apóstolos. E fá-lo duma forma tão bonita! Barnabé elogia o desempenho de Paulo contando as peripécias e a coragem dele em Samaria.

Esta faceta do encorajamento faz-nos falta: A arte do elogio. No filme “Cinderella Man”, que conta a história real dum boxer chamado James Braddock, há uma cena marcante: A cena em que a mulher de Braddock o encoraja. O filme passa-se durante a Grande Depressão. Braddock ganhava a vida como boxer até se lesionar. Num tempo de extrema pobreza nem trabalho nas docas ele conseguia arranjar. Os seus filhos e a sua mulher passam fome. Quando ele tem a oportunidade de voltar a combater, ele aproveita. Porque agora ele tem uma razão pela qual combater: A sobrevivência da sua família. Combate após combate ele vai ganhando força e fama, galvanizando toda uma sociedade de desempregados e desesperados, até chegar ao combate que iria decidir o titulo mundial. O seu adversário era um animal que já tinha morto dois homens no ringue de boxe, chamado Max Breer. Mesmo antes do combate final, a sua mulher vai aos balneários, nos calabouços do estádio e olhando bem nos seus olhos diz o seguinte: “Lembra-te de quem tu és. É a esperança de todo um povo. É o herói dos teus filhos. E és o campeão do meu coração”. Este é o factor Barnabé!



3 – O encorajamento é a arte de investir nos outros.

Barnabé demonstra esta verdade em duas ocasiões.

Primeiro, ele defende o jovem João Marcos. Em Actos 15:39 é-nos relatado um episódio de conflito entre Barnabé e Paulo. Houve uma “desavença” entre eles. A expressão traduz a ideia de “febre alta”. Foi uma discussão feia! A causa de tal conflito era João Marcos. Paulo achava que ele não merecia a sua confiança porque tinha baqueado debaixo da pressão durante a 1ª viagem missionário, e agora à beira da 2ª viagem Paulo não queria correr riscos. Barnabé, sempre igual à sua alcunha de encorajador, achava que João Marcos merecia uma 2ª oportunidade. Separaram-se. Cada um foi para seu lado. Mas Barnabé tinha razão e Paulo mais tarde vem a confessar que João Marcos “lhe era muito útil no ministério”. O factor Barnabé a funcionar!

Uma segunda situação em que vemos Barnabé a investir na vida dos outros é quando ele investe na vida do apóstolo Paulo. Vemos isso em Actos 11:25-26 que nos relata o crescimento fenomenal da Igreja em Antioquia da Síria. Era tal o crescimento do “Caminho” entre os gentios (gregos, cipriotas e judeus) que os apóstolos enviam Barnabé para ver o que se passava. Barnabé chega a Antioquia e imediatamente começa a “encorajar a todos a que com firmeza de coração, permanecessem no Senhor” (Actos 11:23). Vendo o crescimento da Igreja ele não quis que Antioquia fosse a sua coutada pastoral e vai buscar Paulo – que estava encostado na prateleira ministerial – para o ajudar. E durante um ano estiveram os dois trabalhando na Obra e Deus abençoou o fruto das suas mãos, e “em Antioquia foram os discípulos pela primeira vez chamados Cristãos” (Actos 11:26).

Há um exemplo luminoso desta realidade espiritual na literatura. No século 19, Natanael Hawthorne chega um dia cansado e frustrado a casa: “Sou um desastre, hoje fui despedido do armazém onde trabalhava!”. A sua mulher exulta de alegria: “Agora podes dedicar-te ao livro que sempre quiseste escrever!” Natanael responde espantado: “E vamos viver do quê, mulher!?” É nessa altura que a sua mulher vai ao fundo da sala e abre uma velha arca retirando de lá um maço enorme de notas. “Onde foste buscar isso mulher?” Ela responde: “Durante anos andei a poupar dinheiro para este momento. Este dinheiro dá para nós vivermos à vontade durante alguns anos. Eu sei que tu és um génio e que vais escrever um livro que será uma obra-prima”. E Natanael Hawthorne escreveu “A Letra Escarlate” que ainda hoje é considerado um clássico da literatura mundial. Foi o factor Barnabé.

Pr. Samuel Nunes